ontem ao meio-dia sentou-se ao meu lado no ônibus da nacional expresso, rota São Paulo-Ituitaba (com paradas em cada cidade do norte do estado de são paulo e do triângulo mineiro, inclusive uberlândia, meu destino), um rapaz um tanto quanto apreensivo. suava e mostrava agitação aparente. perguntei-lhe para onde ia. ao que me respondeu seco: "Ituitaba. Mas eu já devia estar lá. Agora não adianta mais. Não adianta mais. Ô meu Deus". me explicou que ia de são paulo a ituitaba para pegar o corpo do irmão que tinha sido assassinado na noite anterior, e levar para o norte da bahia, onde os seus pais (a mãe já internada pela notícia) aguardavam em desespero. no momento não soube o que lhe dizer; só saiu um "sinto muito. sinto muito mesmo. só posso imaginar a sua dor mas não sei como é". rapidamente e em flashbacks inacreditavelmente vivos me lembrei das injustiças do brasil, do meu tempo de serviço voluntário na bahia, da pobreza que presenciei, e logo o mundo da classe média brasileira me pareceu por demais mesquinho. tive ou imaginei que tinha um acesso de náusea. "a polícia já prendeu o assassino?" perguntei com receio. "moça, não sei e nem quero saber. só me preocupo agora com a minha mãe lá na bahia... quero chegar na funerária logo.. não sei...nunca fui a ituitaba... preciso pegar o corpo do meu irmão ... de lá ir até belo horizonte e de lá pegar um voo para salvador... e aí eles vão esperar com um carro para transportar o corpo do meu irmão até ao nosso interior... polícia... que nada!". tive demasiada pena e sensação de inaptidão. por um momento pensei rápido que a única coisa que poderia lhe oferecer era um abraço, pois não tinha uma palavra sequer que eu imaginava que pudesse abrandar a dor que ele sentia. mas seria estranho abraça-lo ali. então, mesmo sem jeito, arrisquei algumas frases, algumas perguntas. a história veio. família de uns seis filhos do interior da bahia, lugar sem emprego nenhum (e me lembrei das cidadezinhas que visitei em 93 e 94 onde os moradores eram todos velhos, pois os filhos tinham ido trabalhar em são paulo, salvador, etc). o mesmo se passava com essa família. todos esparrados por "esse brasil," me confessou. ele trabalhava em são paulo "com obras". o irmão assassinado estava em ituitaba, "trabalhor e já tinha até comprado três casas". o telefone celular toca; ele atende; responde que está a caminho; que à noite telefona de volta. paramos de conversar. olho pela janela a vegetação que passa enquanto nós, parece, não passamos. a dor de estômago incomoda de leve. "você conseguiu dormir a noite passada?" pergunto. e é a primeira vez que ele me olha diretamente como que surpreso e se dando conta de que existe: "nadinha, moça... consigo não". "quer um remédio para dormir? tenho muitos". "quero não. quero ficar acordado para chegar em ituitaba... achar o meu irmão". "entendo". volto a pensar na fragilidade da vida e na falta de propósito da minha. dormi, por fim, a título de escape, acho. horas depois me virei para olhá-lo. lá estava do mesmo modo que antes: olhar perdido. "você comeu alguma coisa?" "moça, nada desce...mas acho que preciso tomar um leite...meu estômago está doendo". "então, vamos comer alguma coisa quando o ônibus parar em uberaba". ele acena positivamente com a cabeça. descemos do ônibus juntos. comemos juntos. nada falamos. ele sofre. eu também. somos meio que iguais. por fim digo-lhe que precisa se cuidar. ele me olha pela segunda vez. parece começar a voltar à sua existência. mostra um leve sinal de confiança. converso com muito cuidado. ele termina o jantar antes de mim, peço que peça ao motorista do ônibus para me esperar. viramos cúmplices. só quero ficar ao lado desse rapaz. então, o silêncio de depois nos une de alguma forma que não sei como explicar. em uberlândia tenho que dizer "tchau". "obrigado moça, você conseguiu me acalmar. mas isso é assim mesmo... ninguém é imune... só preciso agora ficar forte para ajudar a minha família...meu irmão... agora já foi... obrigado pela conversa....que mal lhe pergunte: a moça é psicóloga?". ele vai ficar bem, pensei. e ele ainda me salva com um leve sorriso: "sou professora, que é como ser psicóloga". com essa frase que levianamente julguei "graciosa" - mas que era mais uma prova da minha vã vaidade -, juntei os pedaços do meu coração partido e desci para pegar a mala gigante...