Onde é o Amapá?

"Vou a Macapá e de lá dirigir 600 kilômetros até atravessar a fronteira com a Guiana Francesa". Foi o que disse o Alencar, filho da vizinha, garoto cujo dia do nascimento me lembro com nitidez - há vinte e cinco anos. Vai de férias. O vôo de São Paulo a Macapá é de 6 horas, disse com um sorriso que pareceu quase tão quilométrico quanto essa distância absurda. Tem amigos lá o esperando, planejando passeios, encontros. Tudo registrado no msn, acrescentou. Não precisa de passaporte para entrar na Guiana Francesa, foi o que lhe informaram. Disseram que é como estar em Santa Catarina (ou é Paraná?) e entrar no Paraguai. Só o RG. Custa em torno de 800 reais a passagem aérea. Caro. Mas tinha umas economias e uma vontade incansável de viagem... É, há tantos lugares no Brasil. No mundo. Eu quis também ir. Ir sempre, de viagem... Adorei a visitinha rápida, casual. Fez sentido pleno.

things one shouldn't take for granted in minas gerais

o pôr do sol do cerrado no triângulo mineiro num dia de muito vento e ar seco. alguém que bate no portão vendendo queijo de trancinha. e o olhar triste do menino desapontado que guarda com pesar o uniforme do cruzeiro num saquinho plástico um dia após a final da libertadores no mineirão contra o estudiante (dirty game).

two man sound - Meu amigo Charlie Brown, 1975

Um amigo meu me mostrou esse vídeo hilariante. Na hora que vi, jurei que os componentes do grupo fossem latinos ou espanhóis por causa do sotaque (não conseguem pronunciar o /z/). Me equivoquei; são belgas. Mas devem ter aprendido o espanhol antes de aprender o português. :) Ah, isso não importa! O que está divertidíssimo nesse vídeo é a coreografia. Dá vontade de dançar junto com eles. Aproveitem!

Cachorro Perdido

Anna Akhmátova era freqüentadora do Brodiátchaia Sobáka (Cachorro Perdido), um cabaré literário fundado em 1911. Seus habitués assistiam ali a conferências, peças de teatro ou balé de vanguarda, recitais de poetas etc. Li isso hoje e me lembrei que fazia muito tempo que eu tinha decidido que quando tivesse o meu cãozinho, iria dar-lhe o nome de "sobáka" - cão em russo. :) Enfim, vou adotar um, logo, logo... e de Akhmátova, aqui uns versos:

"Hoje, tenho muito o que fazer:

devo matar a memória até o fim.

Minha alma vai ter de virar pedra.

Terei de reaprender a viver". (Trecho de "O Veredicto")

"O Brasil não é um país, são cheiros, música, comidas, livros. É a terra do meu avô, é a minha origem". (Lobo Antunes, na FLIP de 2009)

O mir, poimí! Pievtsôm - vo sniê - otkryty zakôn i fórmula tzviétka. (Saiba-o, mundo! O poeta - em seus sonhos - descobre a lei das estrelas e a fórmula da flor.) Marina Tsvietáieva

because of

women by leonard cohen.

praticar a saudade

"Penso em toda essa gente que há pouco vi praticar a saudade no Campo das Cebolas. A cidade inteira está cheia de solitários dominados pela nostalgia do passado [...] Isso que eles têm é melancolia, uma certa tristeza leve. [...] Vou me sentar para esperar, haverá uma cadeira para mim nesta cidade, e nela poderei ver todos os entardeceres, calado, praticando a saudade, o olhar fixo na linha do horizonte [...] sentado diante desse infinito azul de Lisboa, sabendo que à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera." - Enrique Vila-Matas in Suicídios exemplares

Viajar! Perder países!

Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu
- Fernando Pessoa -
* gosto da flexibilidade do blógue; um dia posta-se histórias suas, outro dia de outros, e outros dias ainda um poema, um vídeo. tudo ótimo...

partiu meu coração

ontem ao meio-dia sentou-se ao meu lado no ônibus da nacional expresso, rota São Paulo-Ituitaba (com paradas em cada cidade do norte do estado de são paulo e do triângulo mineiro, inclusive uberlândia, meu destino), um rapaz um tanto quanto apreensivo. suava e mostrava agitação aparente. perguntei-lhe para onde ia. ao que me respondeu seco: "Ituitaba. Mas eu já devia estar lá. Agora não adianta mais. Não adianta mais. Ô meu Deus". me explicou que ia de são paulo a ituitaba para pegar o corpo do irmão que tinha sido assassinado na noite anterior, e levar para o norte da bahia, onde os seus pais (a mãe já internada pela notícia) aguardavam em desespero. no momento não soube o que lhe dizer; só saiu um "sinto muito. sinto muito mesmo. só posso imaginar a sua dor mas não sei como é". rapidamente e em flashbacks inacreditavelmente vivos me lembrei das injustiças do brasil, do meu tempo de serviço voluntário na bahia, da pobreza que presenciei, e logo o mundo da classe média brasileira me pareceu por demais mesquinho. tive ou imaginei que tinha um acesso de náusea. "a polícia já prendeu o assassino?" perguntei com receio. "moça, não sei e nem quero saber. só me preocupo agora com a minha mãe lá na bahia... quero chegar na funerária logo.. não sei...nunca fui a ituitaba... preciso pegar o corpo do meu irmão ... de lá ir até belo horizonte e de lá pegar um voo para salvador... e aí eles vão esperar com um carro para transportar o corpo do meu irmão até ao nosso interior... polícia... que nada!". tive demasiada pena e sensação de inaptidão. por um momento pensei rápido que a única coisa que poderia lhe oferecer era um abraço, pois não tinha uma palavra sequer que eu imaginava que pudesse abrandar a dor que ele sentia. mas seria estranho abraça-lo ali. então, mesmo sem jeito, arrisquei algumas frases, algumas perguntas. a história veio. família de uns seis filhos do interior da bahia, lugar sem emprego nenhum (e me lembrei das cidadezinhas que visitei em 93 e 94 onde os moradores eram todos velhos, pois os filhos tinham ido trabalhar em são paulo, salvador, etc). o mesmo se passava com essa família. todos esparrados por "esse brasil," me confessou. ele trabalhava em são paulo "com obras". o irmão assassinado estava em ituitaba, "trabalhor e já tinha até comprado três casas". o telefone celular toca; ele atende; responde que está a caminho; que à noite telefona de volta. paramos de conversar. olho pela janela a vegetação que passa enquanto nós, parece, não passamos. a dor de estômago incomoda de leve. "você conseguiu dormir a noite passada?" pergunto. e é a primeira vez que ele me olha diretamente como que surpreso e se dando conta de que existe: "nadinha, moça... consigo não". "quer um remédio para dormir? tenho muitos". "quero não. quero ficar acordado para chegar em ituitaba... achar o meu irmão". "entendo". volto a pensar na fragilidade da vida e na falta de propósito da minha. dormi, por fim, a título de escape, acho. horas depois me virei para olhá-lo. lá estava do mesmo modo que antes: olhar perdido. "você comeu alguma coisa?" "moça, nada desce...mas acho que preciso tomar um leite...meu estômago está doendo". "então, vamos comer alguma coisa quando o ônibus parar em uberaba". ele acena positivamente com a cabeça. descemos do ônibus juntos. comemos juntos. nada falamos. ele sofre. eu também. somos meio que iguais. por fim digo-lhe que precisa se cuidar. ele me olha pela segunda vez. parece começar a voltar à sua existência. mostra um leve sinal de confiança. converso com muito cuidado. ele termina o jantar antes de mim, peço que peça ao motorista do ônibus para me esperar. viramos cúmplices. só quero ficar ao lado desse rapaz. então, o silêncio de depois nos une de alguma forma que não sei como explicar. em uberlândia tenho que dizer "tchau". "obrigado moça, você conseguiu me acalmar. mas isso é assim mesmo... ninguém é imune... só preciso agora ficar forte para ajudar a minha família...meu irmão... agora já foi... obrigado pela conversa....que mal lhe pergunte: a moça é psicóloga?". ele vai ficar bem, pensei. e ele ainda me salva com um leve sorriso: "sou professora, que é como ser psicóloga". com essa frase que levianamente julguei "graciosa" - mas que era mais uma prova da minha vã vaidade -, juntei os pedaços do meu coração partido e desci para pegar a mala gigante...

Older Posts